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Instituto Mamirauá, a bem-sucedida conjugação dos saberes tradicionais com a ciência

Instituto Mamirauá, a bem-sucedida conjugação dos saberes tradicionais com a ciência
 
Celebramos nesta segunda-feira (27/05), em uma sessão especial do Senado, os 20 anos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. O evento nos faz relembrar que, da inquietude do zoólogo José Márcio Ayres com a preservação de uma espécie animal exclusivamente amazônica, nasceu um projeto pioneiro por assegurar a comunidades locais o protagonismo na conservação da biodiversidade. 
 
 
Apoiados por pesquisadores e cientistas, presentes na sede da organização, em Tefé, no Amazonas, milhares de pescadores, extrativistas e caboclos ressignificam todos os dias a relação com a natureza. 
 
 
Da exploração predatória dos recursos para garantir a sobrevivência de suas famílias, eles passaram a priorizar o manejo florestal e de espécies, o turismo de base comunitária e o desenvolvimento de tecnologias de acesso à água potável e ao saneamento básico, entre outras louváveis iniciativas sustentáveis. 
 
 
A bem-sucedida conjugação dos saberes tradicionais com a ciência mudou trajetórias como a do pescador Jorge de Souza Carvalho, da comunidade de São Raimundo de Jarauá, na Reserva Mamirauá. 
 
 
Percebendo os sinais de esgotamento da fauna aquática, não haveria outra alternativa para ele se não adotar as recomendações científicas para garantir o estoque de peixes nos rios, especialmente de pirarucus.  
 
 
Entre os anos 80 e 90, a população dessa espécie, que é a maior de água doce do mundo, chegando a medir três metros e a pesar 200 quilos, reduzia a olhos vistos em virtude da pressão por recursos pesqueiros exercida pelos grandes centros urbanos, como a capital amazonense, Manaus. 
 
 
Essa política de incentivo à produção se consolidou com o surgimento de tecnologias como o motor à propulsão e a produção de gelo em escala. 
 
 
Pesados, compridos e com uma constituição respiratória que os obriga a se expor com mais frequência na superfície dos rios, os pirarucus se tornaram presas fáceis diante de pescadores pressionados a atender um mercado em franca expansão. 
 
 
Não é difícil de se presumir que o tamanho médio dos peixes capturados e comercializados começou a diminuir ao longo do tempo, obrigando o país a instituir as primeiras restrições para a pesca da espécie.  Até que, em 1996, a captura do pirarucu foi totalmente proibida no Amazonas. 
 
 
Ciente da importância econômica da pesca para os amazônidas, o Instituto Mamirauá intensificou as pesquisas que serviram de subsídio para a retomada da exploração comercial e, principalmente, sustentável do pirarucu.  
 
 
No fim da década de 90, começava o projeto de manejo com regras muito claras. Entre elas, o respeito ao tamanho mínimo do pescado a ser capturado e a interrupção da atividade durante o período reprodutivo. 
 
 
A parceria entre a ciência e o saber tradicional só acumula resultados exitosos nos últimos 20 anos. Houve aumento médio de 427% dos estoques de pirarucu e faturamento total de mais de 23 milhões de reais para pescadores e pescadoras envolvidas. 
 
 
A filosofia que impulsionou o manejo do peixe símbolo da grandiosidade amazônica repete-se em dezenas de outros projetos, pesquisas e iniciativas criadas pelo instituto, que impactam diretamente na qualidade de vida dos que decidiram fazer da floresta o seu lugar no mundo. 
 
 
A mortalidade infantil nas populações beneficiadas pelas ações do Mamirauá, por exemplo, caiu em mais de 67%. Quase 400 estudantes se formaram no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica e 200 mulheres e meninas já participaram de ações de empreendedorismo, igualdade de gênero e liderança. 
 
 
Os resultados para a natureza são, com certeza, imensuráveis. Preservar a Amazônia é defender um delicado equilíbrio do qual nossas vidas e as futuras gerações depende. 
 
 
José Márcio Ayres, o pesquisador que inspira o instituto, faleceu em 2003, aos 49 anos. Podemos dizer que ele se foi cedo demais, sem ver o quanto contribuiu para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. 
 
 
Seu legado, no entanto, não tem qualquer vínculo com a finitude. Está presente em cada avanço da instituição que ajudou a criar. Esperamos que esse progresso não esbarre na fronteira da indiferença dos nossos dirigentes com a ciência.
 
 
 

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