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Queimadas, desenvolvimento e bom senso

 Queimadas, desenvolvimento e bom senso

 

 
 
Está faltando bom senso ao debate sobre a Amazônia. Paixões ideológicas e ambientais, acusações infundadas, troca de farpas entre chefes de Estado e embates marcados pelo radicalismo nas redes sociais jogam ainda mais lenha na fogueira que insiste em queimar a floresta e a imagem do Brasil no exterior. Pior: a falta de equilíbrio nessa discussão coloca em segundo plano os interesses dos povos da Amazônia e a própria soberania nacional.
 
Se é inquestionável a necessidade de apertar a fiscalização e conter o avanço alarmante das queimadas e do desmatamento, também é preciso entender que a Amazônia não é um santuário. Meio ambiente é a relação entre o homem e a natureza. Índios, caboclos e ribeirinhos têm direito, como qualquer cidadão brasileiro, aos avanços trazidos pelo desenvolvimento econômico.
 
Nós, da Amazônia, queremos ter o pacto federativo resgatado. Não podemos ser penalizados pela precariedade de uma rodovia estratégica como a BR 319, cujas promessas de pavimentação têm sido atropeladas há anos pela burocracia ligada a questões ambientais. Não podemos ter impedido o acesso a uma linha de transmissão energética que interligue Boa Vista a Tucuruí, passando por Manaus. Não podemos ser proibidos de ter perspectivas de melhoria de vida, de emprego e renda.
 
Deter a devastação da maior floresta tropical do mundo não é fechar as portas para o crescimento econômico. Pelo contrário. Preservação e desenvolvimento sustentável caminham lado a lado. Por isso mesmo, é fundamental valorizar mecanismos de desenvolvimento regional, como a Zona Franca de Manaus, que fomenta a geração de empregos, alimenta a economia e protege a floresta, ao criar alternativas de trabalho e renda mais lucrativas que atividades depredatórias.
 
A comoção internacional é compreensível diante da ameaça do aquecimento global e da importância da floresta amazônica como reguladora do clima no planeta. Posições extremadas, no entanto, dão margem a propostas descabidas, como a internacionalização da Amazônia. Temos, sim, que apertar a fiscalização e impor tolerância zero a crimes ambientais. Mas a Amazônia brasileira é e precisa continuar a ser nossa. Soberania é um dos princípios fundamentais da nossa República Federativa.
 
Vale lembrar que, sem a Amazônia, não teríamos o ritmo hidrológico que o Brasil tem. Não haveria hidroeletricas nem agronegócio. O agronegócio, aliás, está na mira de um desastre sem precedentes se não houver um freio no extremismo que vem carimbando o Brasil como vilão ambiental. Quem ganha e quem perde com eventuais retaliações comerciais ao nosso país?
 
A arrogância, entretanto, não é boa conselheira. Precisamos ter humildade para aceitar a ajuda internacional. As doações dos países desenvolvidos são bem-vindas para controlar as queimadas e apertar a fiscalização ambiental. Os arranhões diplomáticos gerados pelo injustificável desmonte do Fundo Amazônia têm que ser contornados. Não dá para abrir mão de recursos bilionários, a fundo perdido, enquanto patinamos numa crise fiscal que nos faz contar trocados na preservação do meio ambiente – e em tantas outras áreas.
 
Se os Estados Unidos estão de fato tão proativos com o Brasil, por que não criam, de uma vez por todas, um mecanismo de remuneração pelos serviços ambientais que a floresta presta? O dinheiro poderia ser usado para valorizar o homem e a mulher que vivem na Amazônia e que são os verdadeiros guardiões do nosso maior patrimônio.
 
Está na hora de o Brasil entender que a Amazônia não é um problema. É uma solução. Está na hora de traçar o limite entre a indignação e radicalismo, entre críticas construtivas e o destempero verbal e diplomático, a justa comoção pelo avanço das queimadas e os interesses não revelados dos que fazem discursos inflamados sem conhecer de perto a realidade da região. Equilíbrio, bom senso, firmeza e vontade política, tecnologia e inovação – esse é o caminho.
 
 
*O autor é engenheiro eletricista e senador pelo MDB/AM
 

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